sexta-feira, 20 de maio de 2016

O Pós-Modernismo Cinematográfico


  Cineastas como Quentin Tarantino, Joel e Ethan Coen, Sofia Coppola, Wes Anderson e, inclusive, Pedro Almodovar, participaram, pelo menos em algum momento de suas vidas, de um dos principais movimentos da história de Hollywood, o Pós-Modernismo.
  Aqui, tentarei destrinchar esse movimento cinematográfico que, inclusive, é o meu favorito em toda a história do cinema.

Da esquerda para a direita: Bottle Rocket, Barton Fink, Pulp Fiction, Lost in Translation e Todo Sobre mi Madre

  Antes do Pós-Modernismo, havia o Revisionismo, que possui como principais representantes os filmes pop de ação, terror e comédia dos anos 80. Apesar de possuírem uma ótima habilidade para redefinir os gêneros cinematográficos, os filmes revisionistas, em geral, buscavam principalmente o lucro, que em grande parte era direcionado para a produtora. Como consequência, a experimentação nos filmes (aspecto importante para a New Hollywood, predecessora do movimento) se apagou, assim como o controle artístico das pessoas realmente envolvidas na produção. Enfim, algum dia posso falar sobre o Revisionismo, mas esse dia não é hoje.
  Enquanto os revisionistas lançavam sucessos atrás de sucessos, uma pequena parcela de diretores, roteiristas, atores e artistas em geral se aventuravam pelo mundo independente. Quase sempre (ou sempre) eram verdadeiros cinéfilos, amantes da cultura pop e do mundo "cult". É o caso de Joel e Ethan Coen, dois irmãos que se aventuravam por filmes como Gosto de Sangue (1984) e Arizona, Nunca Mais (1987), porém, o brilhantismo dos irmãos explodiu com Barton Fink - Delírios de Hollywood, o vencedor da Palma de Ouro em 1991. Foi o início do Pós-Modernismo nos cinemas hollywoodianos.

Cena de Barton Fink, fundador do Pós-Modernismo
  Apesar do sucesso crítico de Barton Fink, o movimento recém-iniciado ainda não havia se estabelecido definitivamente. Até que um antigo funcionário de uma locadora, que nunca havia lançado nenhum filme, aparece na mídia com seu primeiro longa-metragem. O diretor é Quentin Tarantino, e o filme é o clássico Cães de Aluguel. O ano é 1992.
  Barton Fink e Cães de Aluguel possuem tudo o que daria os moldes ao cinema hollywodiano de toda a década de 1990. Por isso, gostaria de utilizá-los para descrever as principais categorias do Pós-Modernismo

Todos os personagens de Cães de Aluguel reunidos
  Vamos, então, às características que definiram quase toda a produção da Hollywood pós-moderna, na conturbada década de 1990. Como já dito, utilizarei os dois filmes iniciais do movimento para descrever o próprio como um todo.
  Iniciando pelo fato mais marcante da produção pós-moderna, as referências. Nos dois filmes, há diversas referências ao mundo do cinema, tanto visuais (inerentes à direção, como a dança de Michael Madsen no filme de Tarantino) quanto narrativas (inerentes ao roteiro, como todo o ambiente de Barton Fink), e ao mundo pop, uma característica marcante nos diálogos do diretor de Cães de Aluguel. Falando em diálogos, os diálogos pós-modernistas são extremamente sem freios, o que acaba trazendo falas altamente realistas para os filmes, com a verborragia sendo um dos principais pilares dessa característica.

Partes do roteiro de Cães de Aluguel
  Além disso, podemos ver nas obras a falta de uma figura heroica. Todos os personagens são anti-heróis, cheios de defeitos e com a moral totalmente deturpada, o que acaba sendo utilizado por outra característica do pós-modernismo, o humor negro e o sarcasmo, que muitas vezes acaba recaindo pelos próprios personagens principais. São muito comuns as mortes inesperadas e ridículas (dentro do contexto da trama), como (spoiler)a morte de Tim Roth na obra de Tarantino(spoiler).
  Além das personagens, o próprio ritmo e as técnicas cinematográficas são deturpadas pela magia pós moderna. Transições planejadamente equivocadas, referências falsas e pulos na linha do tempo são alguns dos vários métodos utilizados pelas(os) cineastas para realizarem praticamente uma "brincadeira" com a estrutura do meio que os próprios estão utilizando (e que são amantes incondicionais). Isso também permitiu que a última característica que será citada aqui fosse possível: os filmes pós-modernistas possuem gêneros extremamente mesclados, muitas vezes tornando impossível a classificação dos mesmos nas categorias "tradicionais" do cinema.

Trainspotting, um grande exemplo da influência pós moderna fora de Hollywood
  Outra coisa que o Pós-Modernismo proporcionou foi o "fim do fim". A partir de então, nenhum movimento hollywoodiano possuiu um "final" definitivo, que encerrou de forma abrupta a produção do movimento. Porém, há um "final espiritual" do Pós-Modernismo, que é o início do Digitalismo, o movimento que conseguiu sobrepor o anterior. O fim espiritual do movimento pós-moderno no cinema coincide com o lançamento de O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel.
  Porém, o Pós-Modernismo continua vivo no cinema atual, com seus principais diretores ainda possuindo grande influência na sétima arte, e atingindo enormes recordes de bilheteria e críticas excelentes (por exemplo, Grande Hotel Budapeste, Os Oito Odiados e Ave, César!, de Anderson, Tarantino e os Coen, na sequência).

A Sociedade do Anel, filme que encerrou o Pós-Modernismo em Hollywood

Filmes base para conhecer o Pós-Modernismo:Barton Fink - Delírios de Hollywood (Joel & Ethan Coen, 1991)Cães de Aluguel (Quentin Tarantino, 1992)Os Imperdoáveis (Clint Eastwood, 1992)Jurassic Park (Steven Spielberg, 1993)Pulp Fiction - Tempo de Violência (Quentin Tarantino, 1994)O Rei Leão (Rob Minkoff / Roger Alles, 1994)Se7en - Os Sete Crimes Capitais (David Fincher, 1995)Pânico (Wes Craven, 1996)Fargo - Uma Comédia de Erros (Joel & Ethan Coen, 1996)Tudo Sobre Minha Mãe (Pedro Almodovar, 1999)As Virgens Suicidas (Sofia Coppola, 1999) 

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